Book trailer e trecho de ''Magia''

Da autora Jéssica Macedo
Magia

Um
Devem estar se perguntando o que uma garota imbecil estava fazendo dependurada no parapeito do seu apartamento para observar o da frente. É porque vocês não conhecem quem morava lá. Richard, o garoto mais bonito da droga de cidade em que eu vivia.
Ele era aquele tipo de cara que toda garota sonhava em namorar um dia. Ele era alto, com um corpo que, ai, meu Deus! Olhos da cor do céu de um dia iluminado e cabelos tão escuros quanto a mais sombria das noites. 
Só que ele nunca olharia para mim por dois motivos.
Primeiro: a namorada do cara era tão linda que mais parecia aquelas estrelas de cinema. Nem tinha como colocar defeito na garota. O corpo dela era simplesmente perfeito; seu rosto mais parecia o de um anjo; seus cabelos loiros caíam livres, formando leves cachos nas pontas, e seus olhos eram tão azuis quanto os dele. E a filha da mãe ainda era mais inteligente que o próprio Albert Einstein. 
Segundo: olha só para mim! O que eu era? Nada! Tá, não podia ser dita como burra, pois era a segunda melhor aluna da classe e só ficava atrás dela. Mas os meus problemas eram outros. A garota passou na minha frente e pegou tudo no requisito beleza. Eu era aquele tipo de garota aberração. Meus olhos tinham um tom lilás, mesmo, quase roxos. O que era muito estranho. E eu não era grande coisa. Até tinha um corpinho legal, mas nada para sair por aí com minissaias e tops. Talvez fosse por isso que eu andasse apenas de moletons e, no máximo, jeans. Meus cabelos eram indecisos entre o vermelho e o preto, dependendo da intensidade da luz. 
— Annabelle? — uma voz praticamente irresistível sussurrou o meu nome.
Caramba! A última pessoa do mundo que eu podia imaginar estava me chamando.
— Annabelle...
Fingi não estar escutando. Permaneci com os olhos abaixados, fitando o espaço fora da janela.
— Annabelle, será que dá para você olhar para mim? — ele disse, irritado.
Mesmo sem querer, voltei-me para ele, fitando apenas as suas chuteiras pretas.
— O que você perdeu no meu quarto? — Ele apontou para a janela, exatamente para outra de um apartamento ao lado.
Oops! Fui pega em flagrante.
— Não é nada — engasguei. — Estava olhando um casal de pombos próximo à janela — menti.
A minha sorte era que eu havia aprendido a mentir para ele com exímia habilidade. 
— O que você quer aqui, Richard? — perguntei, agora encarando seus olhos azuis, tentando parecer não abalada ao olhar para eles.
Como aquele cara podia ser tão bonito? Seu sorriso me deixava tonta, seus dentes perfeitamente brancos quase brilhavam...
— Ei, garota! Por que está tão nervosinha assim comigo? — Ele pareceu não entender a minha reação grosseira.
— Me desculpa, não é nada com você.
— Tudo bem. Você pode me ajudar a fazer o trabalho de História? — Richard disse, balançando os cadernos.
— Por que a Senhora Perfeição... Quero dizer, por que Linda não te ajuda?
Até o nome da garota dizia que ela era bonita. Como competir com alguém assim?
— Bem que ela queria, mas teve que ajudar a mãe a resolver alguns problemas.
— Richard, você está no segundo ano, já devia saber fazer os seus trabalhos sozinho.
— Ah, Belle, por favor, me ajude! — ele pediu com uma voz que quase me fez derreter bem ali na sua frente.— Você é a minha melhor amiga.
Eu tinha que aprender a resistir. Do contrário, logo, logo Richard saberia o quanto eu era doida por ele.
— Tudo bem! Eu te ajudo, R.
— Sabia que você não iria me deixar na mão — ele disse, jogando os cadernos sobre a minha cama e se sentando ao meu lado.
Tive que ter uma baita concentração para realmente ajudá-lo a fazer o trabalho sem desmaiar com o forte perfume do seu corpo, que invadia o meu interior.
— O que você sabe sobre a Segunda Guerra Mundial?
Ele olhou fundo nos meus olhos e sussurrou:
— Nada.
— Cara, o que você está fazendo no segundo ano?
— Sou o principal membro do time de futebol, lembra?
— Acho que sim.
Nossa, aquilo ia longe. O garoto mal sabia o significado da palavra História, quanto mais quem era Hitler. 
Coloquei a mão sobre a boca para bocejar.
A lua já iluminava lá fora quando terminamos o trabalho. Demorei, mas consegui colocar o mínimo de História básica na cabeça dele.
Alguém bateu na porta.
— Posso entrar, meninos? — disse a voz doce de minha mãe.
— Claro, senhora Hendrix — disse Richard.
— Interrompo alguma coisa, crianças? — ela perguntou enquanto entrava no quarto, carregando uma bandeja cheia de comida.
— Não, mãe! — Lancei um olhar zangado para ela.
Minha mãe era bonita, ao contrário de mim. Ela tinha um corpo perfeitamente curvilíneo, pele clara, cabelos castanhos e olhos verdes.
— Pensei que talvez as crianças pudessem estar com fome.
— Estamos. Mas pode deixar ali. — Apontei para a mesinha de cabeceira.
— Richard! — uma voz estrondosa ecoou no apartamento ao lado.
— Desculpe, senhora, mas não vou poder ficar para comer. Minha mãe já deve estar furiosa por eu estar fora de casa há tanto tempo — ele disse, tristonho.
Coitado do Richard, ele tinha que aguentar a maior barra. Sua mãe era alcoólatra e seu pai quase nunca parava em casa. Certo dia ele me disse que acreditava que o seu pai tinha outra família e que só aparecia de vez em nunca para posar de bom pai pra vizinhança. Mas, aos dezesseis anos, era Richard o homem da casa. Ele trabalhava meio horário para colocar o de comer na mesa, pois o que sua mãe ganhava trabalhando de doméstica ela torrava tudo em bebidas. Seu pai nunca trazia dinheiro para casa, a não ser o que ele mandava para pagar a escola de Richard.
— Richard! — a mulher voltou a berrar.
Ele se aproximou de mim, levantou a minha franja e deu um beijo em minha testa.
— Obrigado por ter me ajudado, Annabelle — ele sussurrou.
— De nada! — eu disse, ainda tonta pelo beijo.
— Adeus, senhora Hendrix — ele se despediu de minha mãe. — Até amanhã na escola, Annabelle.
— Eu não sei se vou voltar lá — falei, tremendo da cabeça aos pés.
Eu mais do que detestava a escola. Tem noção do que é ir parar em um lugar onde todos olham torto para você, só porque tem os olhos de uma cor estranha?
— Não ligue para eles — disse Richard ao perceber o estado em que fiquei quando tocou naquele assunto.
— Para você é fácil falar.
— Então, use óculos de sol — sugeriu.
— Vou pensar na ideia.
— Richard!
— Tenho mesmo que ir. Espero te ver amanhã — ele disse, saindo pela porta.
Tá bom que eu ia voltar para aquele lugar... Nem morta! Podia muito bem estudar em casa e ver o meu querido Richard pela janela do meu quarto. 
— Vocês dois estão... — Ela parou de falar assim que viu a minha cara.
Ela sabia que não. Nunca. Infelizmente, ele nunca seria meu. Ele jamais namoraria com a garota esquisita. Aquela que se veste mal e ainda por cima tem os olhos roxos.


Dois
Sabe quando sua vida não tem como piorar e mesmo assim tem um dia em que tudo se torna ainda pior? Era assim que eu me sentia naquele dia, como se todos os astros conspirassem conta mim.
Acordei com o pé esquerdo, pisando em cima de uma piranha de cabelo que eu tinha deixado no chão, ao lado da minha cama. Poxa! Tem noção do quanto doeu? Quase gritei e acordei toda a vizinhança.
Eu tinha que ir para a droga daquela escola, pois minha mãe me obrigara ontem à noite. 
Será que aquele dia poderia ficar pior?
Por que eu fui perguntar? Uma tempestade começou a cair lá fora, que mais parecia o mundo inteiro desabando bem em cima da minha cabeça. Sem tirar o frio insuportável que começou a fazer do nada. Mais parecia que eu estava na Antártida.
Coloquei um dos meus moletons mais grossos sobre a camisa do uniforme, uma calça jeans simples, um All Star xadrez e desci para tomar café. Comi o primeiro pão que veio pela frente e tomei um copo de suco.
Joguei a mochila sobre o ombro, peguei os óculos de sol, lembrando-me do conselho de Richard, e saí porta afora com a minha mãe berrando, dizendo que meus olhos eram lindos e não precisavam ser escondidos. Toda mãe acha seus filhos bonitos, a minha não seria diferente.
Detestava ficar esperando a porcaria do meu especial. Ele sempre fazia a graça de me deixar esperando. Mesmo chovendo, não seria diferente.
Por mais que um morasse ao lado do outro, raramente me encontrava com Richard antes de ir para a escola. O garoto sempre saía mais cedo para se encontrar com o time ou buscar Linda em casa, enquanto eu ficava dormindo o máximo que podia.
Estava debaixo de um guarda-chuva esperando o especial quando um carro passou e lançou um dilúvio em cima de mim. Disse que meu dia já estava ruim? Pois é, ficou pior. Eu estava completamente ensopada e meu cabelo chegava a pingar com a água suja da rua. Juro que, se pudesse, mataria o filho da mãe que fez aquilo comigo.
Tinha uma única escolha: voltar para casa e ouvir um baita xingo da minha mãe, dizendo que tudo aquilo era só uma desculpa que eu inventei para não ir à escola...
Pense que você está seca, uma vozinha irritante sussurrou dentro da minha cabeça.
Não me perguntem por que eu fiz aquilo, pois nem eu mesma sei. Achei que estivesse ficando maluca quando, por mera brincadeira, fiz o que a voz me disse. Apenas pensei que estava seca e, quando abri os olhos, meu Deus! Será mesmo que eu estava ficando maluca? Minha roupa parecia estar mais seca do que o próprio deserto do Saara! 
Não tive tempo para ficar pensando em como aquilo aconteceu, pois a buzina irritante do ônibus que me levava para a escola começou a soar, mandando-me entrar. 
— Entra logo, menina! — gritou o motorista.
Entrei obrigada dentro do ônibus. Detestava ver a cara daqueles garotos me olhando torto enquanto eu passava, dirigindo-me para o fundo. Aqueles que estavam sozinhos no banco jogavam sua mochila ao lado só para que não me sentasse ao lado deles. Quem disse que eu precisava me sentar com alguém? Eu era autossuficiente, não precisava que eles fossem meus amigos.
— Olha só como ela é esquisita — uma garota, que mais parecia uma imitação barata da Barbie, sussurrou para a amiga que estava sentada ao seu lado.
A menina, que parecia uma Xerox da primeira, apenas concordou com a cabeça.
Sentei-me no último banco do ônibus. Sozinha. Isolada. Já nem me importava mais. Fora Richard, não tinha amigos; ninguém que se preocupasse comigo. Era estranha demais para que eles se dessem ao trabalho de me dirigir a palavra, a não ser para me perguntar de qual circo eu tinha fugido ou qual tipo de pessoa-aberração podia ter os olhos de um tom lilás.
Admito, queria poder fugir dali e me esconder no lugar mais isolado que eu encontrasse. Mas infelizmente não podia fazer aquilo. Tinha que ir àquela droga de escola escutar o professor falar e ver os alunos que viravam a cara assim que eu passava perto deles.
A porta se abriu em frente à escola. Felizmente, a chuva já tinha passado. Como sempre, fui a última a descer. A entrada do colégio estava repleta de alunos com seus rostos bonitos e olhos de cores normais.
Meu coração quase disparou quando vi o grupinho de Richard conversando de baixo de um ipê roxo todo florido. Não fui louca para me aproximar dele. Ele, como sempre, estava rodeado pelos garotos do time e abraçado à sua namorada, a Miss Perfeição, que estava super vulgar usando uma minissaia jeans e a blusa do uniforme amarrada, deixando um pedaço da barriga aparecendo.
Bem que aquela garota podia se molhar toda, pensei.
Deus do Céu! O que estava acontecendo comigo naquele dia? Um vento fez o ipê balançar, derramando a maior cortina de água em cima da Linda. Só dela, nem mesmo chegou a molhar o Richard.
— Droga! — ela gritou, enfurecida.
Não resisti, tive que cair na gargalhada. Ver aquela garota mimada toda molhada com certeza foi a melhor parte do meu dia. Enquanto eu me contorcia de rir, aproveitando ao máximo aquele momento raro na minha vida sem graça, uma menina esbarrou em mim, fazendo com que os livros que eu carregava caíssem no chão.
— É melhor não rir da Linda, aberração! — ela disse, com uma voz que me irritava.
A garota seguiu rebolando e nem se importou com os meus livros caídos. Ela era a melhor amiga da Linda; só mais uma garota fútil que namorava um dos caras do time de futebol. O nome dela era Raquel. Tinha um corpo, precisava admitir. Ela tinha um corpão, com coxas grossas. Ela era alta e tinha seios enormes, mesmo para uma garota de dezesseis anos. A sua pele possuía um tom café com leite e seus cabelos longos e cacheados tinham um tom castanho escuro quase preto.
Decidi não perder mais meu tempo vendo aquele circo todo e fui para a sala de aula. Um garoto que estava de pé na porta se afastou ao ver eu me aproximar.
Entrei na sala, fui lá para o fundo e joguei minhas coisas sobre a última carteira no canto. Quanto mais isolada e longe dos olhares alheios, melhor.
Logo o sinal tocou e todos entraram na sala, inclusive Richard e Linda. Os dois se sentaram nas cadeiras da frente e todo o resto da gangue também.
Richard sorriu assim que seus olhos me encontraram no fundo da sala. Foi inevitável não retribuir o sorriso. Infelizmente, a Miss Perfeição o viu voltado para mim.
— Não deveria dar papo para aquela aberração. É suicídio social, sabia? — ela disse a ele.
Richard se voltou para ela, encarando-a com aqueles olhos que mais pareciam um mar calmo.
— Não fale assim da Annabelle. Ela é uma garota fantástica. Eu a conheço desde o dia em que nasci e não vou simplesmente ignorá-la apenas pela cor dos seus olhos.
Ai, como ele podia ser tão doce?
— Richard, você não entende...
— Entendo, sim — ele disse, interrompendo-a. — Olha, amor, se você não quiser discutir comigo, é melhor aceitar minha amizade com Annabelle. 
— Tudo bem — ela assentiu, com uma voz doce. — É por isso que eu amo esse meu namorado caridoso.
Meu coração foi esmagado por uma dor horrível quando eu a vi se curvar para beijá-lo e ele a puxando para si para intensificar ainda mais o beijo. Como aqueles dois podiam fazer uma coisa dessas em público? Principalmente na minha frente. Será que eles queriam me matar?
Eu não podia gostar dele; Richard nunca olharia para mim. Mas meu coração entendia aquilo? Não! Parecia que ele gostava de sofrer. Desde quando eu tinha cinco anos e ele pegou a minha bolinha que tinha caído no chão eu era apaixonada por aquele cara, e ele nunca foi nada mais do que o meu melhor amigo.
Alguém pigarreou. Era o professor Leandro, de História.
— Será que o casal podia deixar para se beijar depois? — ele disse a Richard e Linda.
— Claro. Desculpe-me, professor — sussurrou Richard, envergonhado, voltando a se sentar em sua cadeira.
Leandro era o único professor que eu gostava naquela escola. Não só por ele ensinar a matéria que eu mais amava, mas também por ele ser o único que não me enxergava como uma aberração, e sim como uma aluna qualquer. Tá, e o cara era simplesmente lindo! Nem sei quem era mais gato, se era ele ou Richard. Ele tinha uns vinte e poucos anos e era recém-formado em História. Tinha um metro e oitenta, cabelos loiros, olhos verdes e um corpo que mais parecia ser de um professor de Educação Física.
— Trouxeram o meu trabalho? — ele perguntou à turma, com uma voz muito, muito sexy.
— Sim! — a turma disse, em coro.
Peguei meu trabalho dentro da mochila e o coloquei sobre a mesa enquanto o professor passava recolhendo.
— Excelente! — ele disse ao pegar o meu. — Fico contente com o seu capricho e dedicação.
— Obrigada, professor!
Ele parou por um instante, observando o meu rosto.
— Por que os óculos? — perguntou, curioso.
— Não é nada — engasguei.
— Não vai me dizer que é por causa dos seus olhos...
Fiz que sim, um tanto envergonhada.
— O diferente nem sempre é aceito, Annabelle. Mas isso não quer dizer que ele seja feio. E, particularmente, os seus olhos são lindos. — Ele passou a mão no meu rosto, retirando os óculos. — Não acho que você deva escondê-los.
Ele colocou os óculos sobre a minha mesa e voltou a recolher os trabalhos do resto da turma. 
Não fui a única que ficou de queixo caído com a ação do professor. A maioria das meninas estava virada para trás, de cara no chão, com um olhar “como ele pode falar com alguém como ela?”.
Fiquei distraída demais no resto da aula para realmente prestar a devida atenção. Minha cabeça estava rodando e tentando acreditar no que tinha acontecido.
Infelizmente, a aula passou voando, e logo o professor teve que sair da sala para que o chato do professor de Matemática entrasse para dar o segundo horário.
O professo Fábio era um cara baixinho, irritante e ainda por cima careca. E sem tirar que, mesmo eu sendo uma excelente aluna que fechava quase todas as provas, a matéria que ele dava era um saco.
— Meus queridos alunos... — ele iniciou a aula com uma voz irritante. — Tenho alguns pontos para distribuir e trouxe uma atividade de raciocínio lógico que gostaria que resolvessem em duplas.
A turma toda amou a ideia, pois, antes mesmo que o professor terminasse de dizer o que pretendia, todos os alunos se levantaram e começaram a arrastar as carteiras para formar as duplas. Todos, exceto eu. Nunca fazia trabalhos em dupla, sempre ficava sozinha.
Então, quando me abaixei para pegar meu estojo de lápis, vi pernas se aproximarem de mim.
— Posso fazer como você? — uma voz masculina perguntou.
Ergui meu rosto para ver quem era e não acreditei no que meus olhos me disseram. Era Christopher, um dos caras do time de futebol. Como os outros, ele era bonito. Não mais do que Richard, mas era bonitinho. Tinha os olhos de um azul muito claro, os cabelos de um loiro quase branco e um corpo atlético.
— Tem certeza? — perguntei, incrédula. — Sou eu, Annabelle, a aberração. Lembra?
Ele sorriu. Seus dentes eram muito brancos e perfeitos.
— Eu sei quem você é — ele disse, convicto.
Qual é? Esse cara só podia estar de sacanagem. Quando será que eles iriam começar a rir e dizer o quanto eu era idiota por cair no papinho deles? 
— Será que dá ou não para mim fazer o trabalho com você?
— Claro, puxa a cadeira e senta aí.
Espera aí! Eu disse mesmo aquilo? 
Prepare-se, logo os garotos vão começar a rir da sua cara, pensei. 
Tá, tipo, qual era a novidade? Eles sempre faziam isso. 
O garoto puxou uma mesa e se sentou ao meu lado. 
O professor passou, colocando sobre a mesa uma folha com exercícios de raciocínio lógico.
Puxei a folha para começar a resolver.
EXERCÍCIOS DE RACIOCÍNIO
Questão 1: Qual é o próximo número? 1 2 3 5 8 13 21... 
A) 28
B)60 
C) 34 (Resposta) Conclusão: é a soma dos dois números anteriores.
D) 44
Não demorei mais do que um minuto para resolver a questão e logo passei para a próxima.
Questão 2: Descubra a sequência: 2, 10,12, 16, 17, 18,19...
A) 20
B)30
C) 22 
D) 200 (Resposta) Conclusão: são todos os números que começam com a letra “d”.
Questão 3: Descubra as operações:
1 1 1 = 6 
2 2 2 =6
3 3 3 = 6
4 4 4 = 6
Resposta:
(1+1+1)! = 6
2+2+2 =6
3x3-3= 6
40,5 +40,5 + 40,5 = 6
— Nossa! Como você é inteligente! — disse o garoto enquanto eu resolvia os exercícios.
— Não sou nada — fui modesta.
— Que nada! Eu não ia conseguir resolver nem a metade dessas coisas.
Não era para menos. A maioria dos caras do time de futebol eram mais burros do que uma porta. Só eram um bando de armários sem cérebro.
Peguei a atividade, escrevi os nossos nomes e entreguei ao professor.
— Pode voltar para o seu lugar, agora; para o meio dos seus amigos — disse a ele enquanto tirava da minha mochila um livro que estava lendo.
— Se você não se importar, vou ficar aqui, porque eu acho que, além da Linda e do Richard, ninguém mais acabou. E, sabe, não quero ficar segurando vela.
— Tá, pode ficar — disse, abrindo o livro e me curvando para ler.
O que eu ia fazer? Mandar o garoto vazar assim? Não, ele era o segundo cara que não me chamava de aberração, e eu estava gostando daquilo; de ser tratada como alguém normal, alguém que merecesse respeito.
— Que livro você está lendo? — Ele estava querendo puxar assunto, mas não me importei em socializar um pouco.
— Vale das Sombras.
— Ah, legal!
Pobrezinho. Ele não fazia nem ideia do que eu estava falando. Não devia ser daqueles caras que liam muito.
— Conta a história de uma vampira que se apaixona por um lobisomem e eles estão no meio de uma guerra entre as duas espécies.
Ele pareceu se interessar pelo assunto.
— Você acha que essas coisas existem? 
— Que coisas? — Voltei-me para encará-lo.
— Essas criaturas como vampiros, fadas ou bruxos.
— Não. Essas coisas não existem, são pura ficção.
Nós éramos humanos e não existia nada além disso. Esse mundo dos livros era apenas ficção, nós estávamos no mundo real.
— É, você tem razão... — foi a última coisa que ele disse.
Eu também não fazia questão de falar muito. A vida toda eu fora excluída, então não ficava tão confortável conversando com outras pessoas.
O sinal para a próxima aula soou e todos foram ajeitar suas carteiras para voltar aos seus lugares, inclusive Christopher.
Maravilha, o próximo horário era Educação Física, a aula que eu mais detestava não apenas por ser uma negação em qualquer esporte físico, mas por ter que vestir aquele uniforme colado.
Sorte minha que a professora gostava de mim e ficava jogando xadrez comigo, porque nenhuma outra pessoa se candidatava a ficar jogando com a “aberração”.
Levantei-me, peguei o meu uniforme e fui para o vestiário. Troquei de roupa e passei no almoxarifado para pegar o tabuleiro. Sentei-me na arquibancada e me dispus a ficar ali, jogando sozinha, enquanto a professora apitava o jogo dos garotos.
Era irritante ver as outras garotas passando ao meu lado e rindo da minha cara. Qual era o problema delas? Não poderiam simplesmente me ignorar e ficar por isso mesmo? E adivinha quem era a líder delas: Linda. Quem mais seria? Aquela garota era tão perfeita que me dava nojo. Sabe-se lá por que, mas eu não sentia nada de bom emanando dela. Queria mesmo que ela e toda sua corja fossem para inferno.
Céus, o que estava acontecendo comigo naquele dia? Não foi que aquelas garotas escorregaram no meio da quadra em uma poça d’água surgida do nada? E olha que a quadra do colégio era muito bem coberta. Mas foi a cena mais engraçada que eu já presenciei. Foi caindo uma atrás da outra, igualzinho dominó. Linda foi com a sua boca perfeitamente vermelha de encontro ao chão. Foi inevitável não cair na gargalhada. Não só eu, mas metade do time parou de jogar para se contorcer em risos.
— Calem a boca, imbecis! — berrou Linda, furiosa. — Venha me ajudar, Richard!
Como um cachorrinho, ele foi de encontro a ela e lhe estendeu a mão, como se fosse o seu empregado. Como Richard podia ser assim, tão idiota, obedecendo tudo o que aquela garota imbecil o mandava fazer?
Admito, não sabia por que, mas aquela garota me talhava o sangue. Espera aí! Eu sabia, sim. Talvez fosse porque ela estava namorando com o cara que eu amava; que jamais olharia para mim, uma “aberração” de olhos lilases.
Não aguentei aquela ceninha que os dois fizeram. Tipo assim, “ai, meu amor, você se machucou?”, “não, querido. Com você aqui, ao meu lado, já me sinto melhor” ou “é melhor levar você para a enfermaria, deve ter se machucado”. Eca! Que nojo! Será que existia algo mais água com açúcar do que aquilo? Não, definitivamente, não. Aquilo me enjoou de verdade. 
Nem me importei com a bela bronca que iria levar da minha professora por sair mais cedo da aula sem pedir permissão, o que consequentemente me causaria uma conversa com a diretora. Mas, como elas estavam carecas de saber o quanto eu detestava Educação Física, tudo ficaria por isso mesmo. 
Juntei minhas coisas e voltei para a sala de aula. Pelo menos lá eu não tinha que ficar vendo o “casal perfeito”.
Felizmente o sinal logo bateu e a professora nem deve ter sentido a minha falta, pois estava muito preocupada com a Miss Simpatia.
Peguei o dinheiro no bolso da minha mochila e desci para o recreio. Passei na cantina, comprei qualquer porcaria para comer e engoli tudo sem nem ao menos sentir o gosto do que era. Tudo isso para ficar o mínimo de tempo possível na frente daquelas pessoas que me olhavam com desprezo. 
Corri para a biblioteca. Ali parecia ser o único lugar em que eu não era rejeitada. Sandra, a bibliotecária, até gostava de mim, pois eu era a única pessoa a visitar aquele lugar (o que era bom). Ela dizia que os meus olhos me davam um ar de magia e acreditava que, de alguma forma, eu era alguém especial. Também gostava muito dela.
— Olá, querida! — ela disse, assim que me viu.
Sandra era uma mulher bonita e devia ter lá seus trinta e poucos anos. Era alta, pelo menos comparada ao meu um metro e setenta. Tinha os cabelos negros na altura dos ombros, olhos castanhos e usava óculos.
— Bom dia — disse desanimadamente ao cumprimentá-la com um abraço.
— Ei, o que foi? Aborrecida novamente? — perguntou ao perceber o meu estado.
— Talvez — murmurei. — Nada de mais, apenas as mesmas coisas e as mesmas pessoas.
— Não se preocupe, um mundo de oportunidades está prestes a se abrir para você. Quando souber do que estou falando, será capaz de me entender.
Ahn? Às vezes eu não conseguia entender o que ela queria dizer com todas aquelas coisas. Mas não tive tempo de ficar perguntando, pois logo o sinal bateu para que eu pudesse voltar à sala.
“Pé no saco” foi pouco para descrever as três próximas aulas. Detestava Geografia, Filosofia e Ética. Acho que essas matérias não deviam nem existir. Bom mesmo foi quando finalmente pude juntar minhas coisas e voltar para casa.


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Um comentário:

  1. Ficou bem legal o livro da sua amiga e parabéns pela resenha !!! Bjim

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